Das Tâmaras ao Petróleo: o projeto árabe de escravização

Ahmed Naji
Publicado originalmente em Manassa News, 10/09/2025


Comerciantes árabes conduzem escravizados africanos no Moçambique. Wikicommons

Em abril de 1931, os irmãos Abdulaziz e Abdulrahman bin Abdul Latif al-Muna’ escreviam a Nasir bin Mohammed al-Mani’ informando-o de que haviam vendido cinco mulheres sudanesas em Doha. As mulheres em questão tinham sido trazidas de Dammam, na Arábia Saudita, e vendidas a um homem de nome Jum’a al-Somali por 100 rúpias e 135 dólares.

Nasir, que residia no Bahrein, havia confiado aos irmãos parte de seu capital para uma aventura comercial. Em sua carta, os irmãos explicavam que haviam fechado o negócio rapidamente e por menos do que o esperado, pois as mulheres escravizadas fingiam doença sempre que expostas para venda. Não obstante, Jum’a, que era proprietário de um carro, disse que compraria as mulheres e as levaria embora. Ansiosos para fechar a venda e se livrarem do fardo, os irmãos rapidamente transferiram a propriedade a Jum’a.

O detalhe do "carro" foi algo que me saltou aos olhos ao ler sobre a história em Slaves of One Master: Globalization and Slavery in Arabia in the Age of Empire, de Matthew S. Hopper. A cena justapõe tradição e modernidade, destituição e ostentação, atraso e consumo tecnológico e a astúcia do senhor contra a luta do escravizado. O automóvel, invenção do grande mestre branco, carregava a todos.

Este é só um dos muitos relatos usados por Hopper para documentar a prevalência e expansão do comércio escravista, especialmente nos emirados árabes costeiros, de Mascate a Bassora. O tráfico foi exponencialmente mais brutal entre meados do século XIX e 1940, antes de se reapresentar como patrocínio laboral após a Segunda Guerra.

O Sistema Kafala, um sistema de migração baseada em patrocínio que historicamente deu a empregadores nos países do Golfo um controle quase que total sobre as vidas e status legais de trabalhadores migrantes, é uma forma modernizada de escravização.

Em 1943, uma mulher chamada Fatima bint Mohammed chegou à agência política britânica no Bahrein para relatar um abuso por parte de seu escravizador. Originalmente de Zanzibar, agora parte da Tanzânia e com governo semi-autônomo, Fatima havia sido raptada por comerciantes árabes junto a milhares de crianças tomadas da África Oriental. Fatima fora primeiramente vendida a uma família em Dammam, depois revendida a outra mulher no Bahrein. Às autoridades britânicas, Fatima disse que era agredida diariamente com um sapato e um chicote. O relatório indicou sinais de tortura e abuso em seu corpo, e as autoridades britânicas emitiram um certificado de alforria garantindo-lhe liberdade formal.

A escravização das tâmaras e das pérolas

A história de Fatima - e das incontáveis pessoas escravizadas nos emirados costeiros - data de séculos. Desde o século XVI, duas rotas de tráfico escravista emergiram, ambas desde a África. A primeira, mais antiga, começou na África Oriental, onde o Sultanato de Omã ocupou Zanzibar e outras ilhas, assim como regiões costeiras e territórios interiores.

Comerciantes árabes da península atraíam crianças africanas com tâmaras recheadas com sedativos. Uma vez adormecidas, as crianças eram levadas a barcos que as transportavam a Mascate ou Dubai, a capital histórica tanto do tráfico quanto da pirataria. Daí, os escravos eram vendidos a mercadores em Bassora ou nos emirados costeiros. Esta rota se estendia até a Índia.

A segunda rota foi a do tráfico transatlântico, pela qual cativos africanos eram transportados às colônias europeias das Américas do Norte e do Sul.

Os dois sistemas diferiam em cultura e estrutura. Sob a lei islâmica, escravizados da rota oriental eram usados principalmente como símbolos consumistas pelas elites econômicas, com maior demanda por escravizadas mulheres. O valor de um escravizado aumentava se pudesse ler, escrever, tocar um instrumento ou cantar; habilidades que refletiam o status social e a riqueza de seu dono.

Isto contrastava fortemente com o sistema Atlântico, em que milhões foram forçadamente transportados para trabalhar na agricultura e construir novas colônias sob leis europeias e doutrina cristã.

Após a declaração da independência dos EUA, o comerciante estadunidense Alexander Hamilton chegou a Mascate no final do século XVIII, marcando a primeira viagem comercial entre a costa árabe e Boston. Ele retornou com uma variedade de bens, incluindo tâmaras, que iniciaram uma revolução culinária e econômica no país ao longo do século XIX. O comércio de tâmaras coincidiu com o crescente apetite estadunidense por pérolas da região.

Ao início do século XIX, o comércio entre os EUA e cidades árabes costeiras como Mascate e Bassora florescia. Tâmaras eram comercializadas como "fruta de Cristo" dos pomares do "Éden do Leste", e pérolas se tornaram um símbolo de status entre mulheres burguesas estadunidenses.

Em resposta à demanda dos EUA, os emirados costeiros expandiram o cultivo de tamareiras e a busca de pérolas para aumentar exportações em troca de - ironia das ironias - querosene e derivados de petróleo.

Esta mudança alterou a dinâmica do tráfico escravista do Oceano Índico. Árabes da costa começaram a abduzir e comprar mais africanos - majoritariamente muçulmanos - para forçá-los a trabalhar em fazendas de tâmara e na busca de pérolas. A despeito da religião compartilhada, árabes muçulmanos capturavam e escravizavam africanos muçulmanos, destruindo qualquer noção de unidade ou solidariedade muçulmana.

Famílias ricas que lucravam com este tráfico usavam trabalho escravizado para angariar fortunas, apresentando-se a oficiais britânicos, comerciantes estadunidenses e missionários cristãos como autoridades legítimas da região. Ao final do século XIX, a Grã-Bretanha reconheceu oficialmente o poder de algumas destas famílias, transformando senhores de escravos em futuros governantes.

Colourpicture Publishers, Inc
Riverside County Parade and National Date Festival, California, 1969

A Grã-Bretanha abolira a escravização oficialmente em 1833, encarregando suas bases militares no Golfo de interceptar navios árabes carregando africanos escravizados. Tais campanhas foram amplamente mal-sucedidas e o tráfico continuou a florescer até 1940. Mesmo quando forças britânicas libertaram cativos, alguns eram escravizados e revendidos. Os remanescentes de sorte eram enviados a Mumbai ou a escolas missionárias estadunidenses no Bahrein, onde eram convertidos ao cristianismo e ensinados na língua inglesa. Aqueles que não conseguiam escapar enfrentavam condições ainda piores do que aquelas permitidas sob leis islâmicas de escravização.

Em um caso de 1921, Aisha bint Khalifa Al Nahyan, irmã do sétimo governante de Abu Dhabi, Zayed bin Khalifa (m. 1909), libertou seus escravizados antes de sua morte e pediu a seu filho, Saif bin Mohammed, que documentasse formalmente as alforrias. Quando o Sultão bin Zayed al Nahyan chegou ao poder em 1922, porém, ele ignorou os certificados e reescravizou os indivíduos libertos, declarando-os propriedade da família Al Nahyan. Um deles, uma criança, escapou para o escritório político britânico, reclamando ter sido forçado a mergulhar em busca de pérolas a despeito de sua idade. Os homens do sultão, porém, o recapturaram e o levaram de volta à força para continuar os mergulhos durante a temporada.

A escravização no Golfo não acabou devido à intervenção britânica ou à bondade dos governantes, mas porque os EUA, a partir da década de 1920, começaram a desenvolver o cultivo de tâmaras no sul da Califórnia. A produção de pérolas também encontrou a Califórnia através do Japão. Enquanto isso, a seca e a doença assolaram as tâmaras árabes na mesma época, abrindo o mercado global aos produtos estadunidenses.

A partir de então, não havia mais necessidade de escravizar crianças africanas para o cultivo de tâmaras ou o mergulho por pérolas.

Os anos do petróleo

Poucos anos após a Segunda Guerra Mundial, a exploração e a extração de petróleo tiveram início nos emirados costeiros árabes — aos quais a Grã-Bretanha havia concedido independência, após décadas de proteção contra a influência otomana e saudita. A Grã-Bretanha entregou-os, devidamente preparados, a Roosevelt e aos Estados Unidos.

Com o petróleo, surgiu a necessidade de um novo tipo de mão de obra — desta vez, não proveniente da África Oriental, mas composta por profissionais de classe média: engenheiros, médicos, professores — recrutados sob o sistema kafala como contratados, e não como parceiros.

Na era do petróleo, assim como na era das tâmaras e das pérolas, as elites feudais do Golfo capitalizaram sua relação com as grandes potências ocidentais — primeiro a Grã-Bretanha, depois os Estados Unidos — para consolidar o poder e preservar sua dominância econômica. Elas também investiram na construção de uma imagem moderna que sugeria uma fusão entre tradição e modernidade: um sistema econômico feudal que discute modificação genética e inteligência artificial.

Essa imagem cuidadosamente gerenciada muitas vezes mascarava uma realidade persistente — uma contradição perfeitamente capturada no cenário marcante dos irmãos Al-Muna, há um século, que vendiam mulheres escravizadas por 135 dólares ao lado de um carro moderno projetado para transitar pelo deserto.

Hoje, conservadores americanos e ocidentais admiram esse modelo do Golfo.

Durante suas visitas recentes, Donald Trump disse repetidamente: "É realmente incrível o que vocês fizeram. Vocês realizaram um milagre moderno."

Ele não estava se referindo ao tipo de mármore italiano presente no palácio do governante do Catar. Ele se referia à concretização, pelos árabes, do sonho que faz milhões de americanos brancos salivarem: uma estrutura de trabalho semelhante à escravidão, viabilizada pela IA.

Para a direita americana, a Guerra Civil — que culminou no fim da escravidão — deixou uma ferida profunda. Todos os seus projetos e manobras políticas são tentativas de restaurar aquele mundo: um cenário em que um homem branco está sentado em uma plantação de algodão, bebendo limonada enquanto observa seus escravos no campo.

Essa era já passou, mas hoje eles olham com inveja para os Estados árabes do Golfo. Esses árabes realizaram o sonho que muitos americanos brancos ainda almejam. O plano "America 2025", proposto pela direita, visa reformular fundamentalmente as leis de imigração e naturalização, criando um sistema moldado nos atuais países do Golfo.

Isso inclui vincular vistos ao emprego e ao "patrocínio" (sistema de kafala), bem como conceder a cidadania americana com base no "mérito", em vez de tempo de residência e contribuições fiscais. Isso espelha o "visto dourado" e a naturalização seletiva oferecidos por alguns Estados do Golfo a artistas, empresários ou acadêmicos, enquanto milhões de trabalhadores migrantes permanecem sem direitos.

Alguns argumentam que a postura do Golfo contra a Primavera Árabe foi motivada pelo medo do Islã político. Mas a realidade é mais complexa. A Primavera Árabe representou um ressurgimento de ideias sobre autogoverno e independência. Os povos árabes, especialmente a elite de classe média, afirmaram sua humanidade, sua liberdade e sua capacidade de coexistência à margem de estruturas feudais e das pretensões de domínio hachemita.

Para os emirados da costa árabe, essas ideias libertadoras representavam uma ameaça existencial. O feudalismo é a essência de seu DNA político.

Para garantir sua própria estabilidade, eles têm um interesse direto em restringir os desfechos políticos a dois modelos insustentáveis. O primeiro é um sistema autoritário que funde o governo islâmico à autoridade feudal, permitindo uma alternância de poder controlada entre as elites, mas jamais uma transição democrática genuína — um padrão observável nos casos de Al-Shara e Jolani. O segundo modelo, e o mais devastador, é a fragmentação do Estado, alcançada mediante o desmantelamento sistemático dos alicerces da sociedade civil, o apagamento da memória coletiva e a eliminação de qualquer possibilidade de uma paz civil unificadora ou de um imaginário comum — um processo já concretizado nos casos da Líbia e do Sudão.

Nesse esforço, os emirados costeiros têm apoiado metodicamente guerras civis, o colapso institucional e o retorno a formas primitivas de governança tribal e feudal, lembrando a todos que são, em última análise, escravos de um único senhor.

E, para aqueles que ousam se rebelar, a punição econômica e a fome permanecem como ferramentas de disciplina sempre prontas para serem usadas.


Ahmed Naji é escritor. Nascido em Mansoura, Egito, em 1985, ele vive atualmente nos EUA. É autor de Rogers (2007), Using Life (2014), Tigers for my room (2019), Happy Endings (2023), Rotten Evidence (2020), que foi escrito na prisão. https://ahmednaji.net/

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