Como a Decolonização Acaba Reproduzindo Aquilo que Combate
Badar Salem
Publicado originalmente em 27 de julho de 2025
Tradução: Al Jaliah
O chamado para a “decolonização” se espraia por toda parte. Aquilo que uma vez foi um clamor pelo fim do jugo imperial, hoje se tornou uma palavra de ordem cultural e política que pulula em salas de aula, protestos e legendas de Instagram de forma similar. À medida que o mundo ganha tração, porém, o significado da palavra se estreita e sua função se complica. Seria a descolonização ainda uma questão de reclamar o poder de traçarmos os próprios futuros ou teria ela se tornado uma armadilha, travando sociedades pós-coloniais num ciclo eterno de reação ao passado?
Dois pensadores - Olúfẹ́mi Táíwò e Vivek Chibber - sugerem que o discurso decolonial atual pode estar mais reproduzindo do que resistindo à lógica do colonialismo.
Os Limites do Discurso Decolonial
Em “Contra a Descolonização: Levando a Agência Africana a Sério” (2022), Táíwò aponta que o uso moderno de “decolonialidade” se distanciou de seu significado original. O autor separa a decolonialidade em dois tipos:
Olúfẹ́mi Táíwò, Professor do Africana Studies & Research Center da Cornell University
Decolonização 1: A luta histórica por soberania política, em que colônias lutaram por, e adquiriram, independência legal, estabelecendo seus próprios governos e instituições. Esta fase, ele nota, está amplamente completa.
Decolonização 2: Um projeto cultural moderno focado no apagamento de todos os traços de influência coloniais, da língua à educação e a quadros intelectuais. Esta versão se manifesta em chamados de reavivamento de línguas locais, redesenho de currículos que priorizem conhecimentos indígenas, ou remoção total de influências Ocidentais.
Na superfície, “Decolonização 2” parece empoderadora, resgatando identidade e rejeitando opressão. Táíwò, porém, mostra que ela pode ricochetear. Ao assumir que o impacto do colonialismo foi total, esta abordagem reduz povos colonizados a vítimas passivas, ignorando como adaptaram, e cooptaram, ferramentas Ocidentais segundo suas necessidades. Como argumenta o autor, “Muito do discurso da decolonialidade trata o colonizado como se fosse um silêncio presente num drama escrito por outros” (Táíwò, 2022: 43, tradução nossa).
Essa mentalidade arrisca tornar a libertação numa busca por “pureza” em que qualquer coisa ligada ao Ocidente (democracia, ciência, mesmo a língua), é suspeito. O problema com este discurso é que ele nega às sociedades pós-coloniais a liberdade de escolher o que funciona para elas. Ele também simplifica questões complexas, como corrupção ou pobreza, culpando por elas unicamente o legado colonial e ignorando as falhas de governança locais e o papel global do capitalismo.
A Armadilha Cultural da Teoria Pós-Colonial
O pesquisador marxista, Vivek Chibber se foca na obsessão da teoria pós-colonial com a diferença cultural face acima das realidades econômicas. Em Teoria Pós-Colonial e o Espectro do Capital (2013), ele argumenta que a ascensão da teoria pós-colonial na academia Ocidental preencheu um vão deixado pelo declínio dos movimentos operários na década de 1970. Ao invés de se focar na classe ou no capital, teóricos como aqueles da escola dos Estudos Subalternos, deram ênfase à identidade cultural, argumentando que conceitos como democracia ou direitos humanos são “Ocidentais” e não se aplicam ao Sul Global.
Vivek Chibber, professor de sociologia da New York University
Chibber chama isso de eco sutil da lógica colonial: a ideia de que pessoas não-Ocidentais são muito “diferentes” para compartilharem objetivos universais. Ele contra-argumenta: “Minha visão é a de que, mesmo que haja diferenças culturais enormes entre pessoas no Leste e no Oeste, há também um série de preocupações centrais que elas compartilham: há a preocupação pelo bem-estar físico; há provavelmente uma preocupação para algum grau de autonomia e autodeterminação; há a preocupação por aquelas práticas que dizem respeito à assistência social. Isto não é muito, mas você ficaria espantado pelo quão longe isto te levaria para explicar transformações históricas realmente importantes” (Entrevista à Jacobin).
O autor dá o exemplo de camponeses indianos que, no Século XIX, lutaram por condições melhores, impulsionados pelas mesmas motivações básicas que sua contraparte europeia, ainda que expressando-se por tradições locais. O desejo por dignidade, segurança e bem-estar social não é Ocidental, mas humano.
Ao enquadrar tais aspirações universais como “Ocidentais”, a teoria pós-colonial subestima a agência das pessoas comuns, tornando suas escolhas inautênticas, impostas ou contaminadas.
O Custo da Política da Pureza
Ambos os pensadores alertam que a pressão pela pureza cultural (seja pela Decolonização 2 ou pela teoria pós-colonial), pode travar as sociedades em uma postura reativa. Táíwò critica a visão romantizada de um passado pré-colonial que ignora suas complexidades e define os povos pós-coloniais a partir do trauma.
Esta “política da pureza” demanda que tais povos se dispam de toda influência Ocidental para serem “autênticos”, limitando sua habilidade de inovação ou adaptação. Chibber adiciona que este foco serve às elites acadêmicas mais do que aos fazendeiros ou trabalhadores que ele diz representar, desviando a atenção das lutas materiais contra a pobreza ou a exploração.
O resultado? Um discurso que é difícil de desafiar. Rotule algo como “decolonial” e aquilo ganha uma carapaça moral, relacionando-o ao legado das lutas anticoloniais. Questione tal rótulo e você arrisca ser visto como um traidor da causa. Ainda assim, como Táíwò e Chibber argumentam, a verdadeira agência não é sobre a rejeição do Ocidente ou a busca pela passado, mas sobre a liberdade da escolha, da mistura e da criação.
Como Táíwò argumenta em seu livros, nenhuma consideração sobre a modernidade estará completa se enxergá-la como exclusivamente europeia, com a Europa como sua única autora. A modernidade pode ter emergido na Europa, mas ela nunca se constituiu plenamente ali. Insistir no contrário é forçar africanos, e outros no Sul Global, a inventar modernidades separadas, “autênticas”, ao invés de reivindicar sua parte em moldar e redimir a própria modernidade. “Esta é a tragédia de Decolonização 2: ela não consegue tolerar a ideia de que africanos abracem a modernidade como deles” (Táíwò, 2022: 192, tradução nossa).
Recuperando a Agência
Como ir além da retórica? A decolonização deveria ser sobre a expansão de possibilidades, não sobre a imposição de testes de pureza cultural. Uma governança transparente e escolas bem financiadas são mais urgentes que gestos simbólicos como renomear ruas. O capitalismo global, e não só a história colonial, é que molda as desigualdades atuais. Combater os desequilíbrios comerciais ou a corrupção local é tão vital quanto a recuperação cultural.
As sociedades pós-coloniais já se misturam às ferramentas globais (tecnologia, sistemas legais, línguas), com suas próprias tradições. Adotar o inglês ou o francês, neste sentido, não é uma traição, mas geralmente um modo prático de se conectar, competir ou acessar mercados e educação internacionais. Se a decolonização quer significar algo hoje, ela deve ser menos rígida sobre as regras e mais atenta em abrir espaço para a escolha, para a complexidade e para seguir em frente, não apenas olhar para trás.
Badar Salem é uma escritora e editora palestina radicada em Montreal.