Meio dia

Naguib Mahfouz
Tradução de Jemima Alves


Texto publicado originalmente em 1988 na coletânea de contos الفجر الكاذب [Alfajr Alkadhib/O Falso Alvorecer] (Beirute; Cairo: Dar El-Shorouk).


Eu caminhava ao lado do meu pai segurando sua mão direita. Precisava correr para acompanhar o seu passo largo. Minhas roupas eram todas novas: o sapato preto, o uniforme verde e o tarbuche vermelho. Eu era o único que não estava feliz com a roupa nova, não com uma felicidade sincera. Não era um dia de Eid, mas o primeiro dia que eu iria para a escola.

Detrás da janela, minha mãe observava nossa pequena procissão. Vez ou outra, eu me virava para olhá-la, como quem pede socorro. Avançamos pela rua entre os dois jardins. De cada lado, vastos campos de cultivo com pastagem, figueira da Índia, árvores de henna e algumas tamareiras.

— Por que a escola?.... Eu nunca mais faço nada pra te irritar! - Eu disse com certa angústia. 

Ele riu.

— Eu não estou te punindo. A escola não é uma punição. É uma fábrica de transformar meninos em homens de valor. Você não quer ser como seu pai e seus irmãos?

Não me convenceu. Eu não podia acreditar que haveria qualquer coisa boa em me arrancar do aconchego do meu lar e me atirar neste edifício no final da estrada, como uma torre gigante de aspecto severo rodeado por muros altos e sombrios. Quando chegamos ao portão aberto demos de cara com um pátio imenso apinhado de meninos e meninas.

— Entre sozinho e junte-se a eles. Ponha um sorriso no rosto e se comporte bem — Meu pai me disse.

Hesitei e cerrei meus dedos nas palmas das mãos do meu pai, mas ele, gentil, me afastou e disse: 

— Seja homem, hoje sua vida começa de verdade. Na hora da saída você vai me encontrar te esperando aqui. 

Caminhei alguns passos e parei para olhar. Olhava e não via nada. Então, reparei nos rostos dos meninos e meninas se virando para mim. Eu não conhecia ninguém e ninguém me conhecia. 
Eu me senti como um estranho, um perdido. Um olhar ou outro se dirigia a mim movido pela curiosidade: 

— Quem te trouxe?

— Meu pai — eu sussurrei. 

— Meu pai morreu — ele disse, sem rodeios. 

Eu não sabia o que dizer ao menino. O portão se fechou, rangendo deploravelmente. Alguns soluçavam de choro. O sinal soou. Uma senhora veio até nós, seguida por um grupo de homens que começaram a nos enfileirar. Ficamos muito bem alinhados naquele pátio imenso rodeado nos três lados por prédios que se erguiam em andares. Em cada andar, um balcão comprido com cobertura de madeira, de frente para nós. 

— Esta é a nova casa de vocês. Aqui há pais e mães também. Há aqui de tudo para lhes trazer alegria e suporte, desde às brincadeiras, ao conhecimento e à religião. Sequem as lágrimas e recebam a vida com contentamento. 

Nos entregamos à realidade. Nos entregamos por inteiro a uma espécie de satisfação. 
Um ser ia se atraindo pelo outro... e desde os primeiros minutos meu coração sentiu vontade de fazer amizade com os meninos e se apaixonar pelas meninas, até parecer que minhas apreensões não faziam mais sentido. Nunca imaginei que a escola fosse um ambiente tão agitado e cheio de riquezas. Brincávamos com diferentes jogos, de balanços, de estrela nova, de pular sela e de bola. Na sala de música cantamos os primeiros hinos. Tivemos nosso primeiro encontro com a língua. Vimos pela primeira vez o globo terrestre, que girava mostrando os continentes e os países. Batemos à porta da ciência ao sermos introduzidos aos números. Nos contaram a história do Criador dos seres no universo, do porvir, e conhecemos exemplos de sua palavra. Devoramos comidas deliciosas. Cochilamos e acordamos para darmos continuidade às amizades, aos amores, às brincadeiras e à aprendizagem.
O caminho revelou sua face por inteiro e não o encontramos em toda sua pureza e beleza como imaginamos. Talvez algum vento lhe tenha sobrevindo, ou acidentes inesperados tenham ocorrido, pois demandava que estivéssemos completamente despertos, preparados e adornados com a paciência. A questão não era brincar e se divertir. A competição já havia espalhado dor, ódio ou causado disputa e desavenças. A senhora, sempre sorridente, às vezes tinha que promover as pazes e nossa atenção. A ameaça de punição e correção nos preocupava mais. Além disso, o tempo de reconsiderar já havia passado e desaparecido, jamais haveria retorno ao paraíso do lar. Tínhamos diante de nós apenas o esforço, a luta e a paciência. Aquele que perseguia o que era possível para si, tiraria vantagens das oportunidades de sucesso e de felicidade. 
O sinal soou anunciando o final do dia e o término dos trabalhos. Todos partiram em direção ao portão, novamente aberto. Despedi-me dos meus amigos e das garotas graciosas ao cruzar a soleira do portão. Lancei um olhar, fazendo uma busca atenta, e não encontrei nem rastro do meu pai como prometera. Dei alguns passos para o lado para espera-lo. A espera se alongou e me pareceu inútil, então decidi caminhar até em casa sozinho. Depois de dar alguns passos um homem de meia idade passou por mim e eu pensei, à primeira vista, que o conhecia de algum lugar. Ele se aproximou sorrindo e me cumprimentou dizendo:

— Quanto tempo passou desde que nos encontramos pela última vez. Como você está?

Eu concordei com ele acenando com a cabeça e lhe perguntei:

— Como vai?

— Como você vê, nem tudo vai bem. Subhan Maalik Al-Malik!

Me cumprimentou novamente e partiu. Avancei mais alguns passos e parei um tanto confuso. Meu Senhor... onde está a rua entre os jardins? Onde foi parar? O que aconteceu aqui? Quando foi que esses carros invadiram esse lugar? Quando essa horda de gente se apinhou sobre a face da terra? Como essas colinas de lixo cobriram os canteiros? Onde estão os campos de plantio que margeavam os dois lados? Cidades de edifícios altos, repletos com os barulhos das crianças e da molecada que desestabilizava a atmosfera com sua voz incômoda agora tomavam conta.
Em vários lugares se achavam mágicos demonstrando sua destreza e inventividade em truques com cobras e serpentes. Houve então um grupo musical anunciando a inauguração do circo, com palhaços e levantadores de peso à sua frente. Filas de carros de soldados de segurança central desfilavam solenes vagarosos. O carro dos bombeiros berrava com sua sirene sem ser clarosaber como cortar caminho para apagar o fogo que se erguia. Uma briga entre o motorista de táxi e o passageiro ocorria, enquanto a esposa do passageiro pedia por ajuda sem ser atendida. Meu Senhor! Minha cabeça está girando. Quase enlouqueci. Como tudo isso pôde acontecer em apenas meio dia? Entre a manhã e o pôr do sol. 
Encontrarei a resposta a tudo isso em casa, com meu pai. Mas onde ficava minha casa? Eu só vejo edifícios e multidões. 
Apertei o passo até cortar as ruas entre os dois jardins e Abu Khoda. Eu tinha que atravessar Abu Khoda para chegar à minha casa, mas o movimento dos carros não me permitia. A sirene dos bombeiros continuava se esgoelando com toda sua força e se movia como uma tartaruga. “Deixe o fogo sentir prazer no que consome”, eu disse. Eu me questionei um tanto irritadiço: “Quando poderei atravessar? Fiquei ali por um bom tempo até que um moço da loja de passar roupas da esquina, se aproximou de mim e estendeu seu braço com cavalheirismo, dizendo:

Ya hajj... venha, eu te atravesso.


Jemima Alves: é doutora em Letras (CNPq/USP), pós-doutoranda no Departamento de Letras Orientais da FFLCH-USP e atua como tradutora literária árabe-português. Realizou doutorado sanduíche na Universidade de Nova York sob supervisão do professor e escritor iraquiano Sinan Antoon.

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